Let it kill you

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domingo, 17 de abril de 2011

A primeira bandeira

Eu levei um tempo pensando no que escrever neste blog. Tive várias ideias, mas nada que me fizesse ter coragem de sentar e realmente escrever. Acho que descobri porquê: eu preciso sentir alguma coisa para conseguir escrever. 


Há mais ou menos duas horas, perdendo tempo na internet, acabei achando, por acaso, um artigo sobre uma tal de Adele, que é considerada a anti-Lady Gaga. Li uma entrevista em que Adele diz ser muito criticada por suas formas físicas e em resposta às críticas, diz que não depende dos peitos ou da bunda para fazer sucesso. Dito isso, fiquei curiosa para saber o que era essa forma física tão criticada e, obviamente, Adele é gorda (afinal, o que mais seria criticado?). Ouvi a primeira música da Adele que o youtube me indicou e chorei de um jeito que não chorava já há algum tempo. E não foi só porque a letra relata uma situação e um sentimento  tão familiares, ou pela voz poderosa e sincera que ela tem. Foi a coisa como um todo. Vou explicar:


Quem me conhece, sabe que a minha verdadeira paixão na vida é cantar. Gosto tanto quanto gosto dos animais. Quando tinha uns 11 anos, fui toda empolgada dizer à minha mãe que queria participar de algum daqueles programas para calouros, que tudo que eles estavam pedindo era alguém que soubesse cantar. Minha mãe disse "para essas coisas é preciso ser bonita". Depois disso eu meio que me silenciei e quando voltei a cantar, era só no banho ou lavando a louça, como faço até hoje. Não culpo minha mãe por ter me dito isso porque é bem verdade. A definição de feio é uma coisa que varia de acordo com a época, mas acho que já faz uns bons séculos que  o sinônimo de feio é, entre outras coisas, gordo, então eu não teria a menor chance de qualquer maneira. 


Quando comecei a assistir Glee com a Laura, nos meus tempos de aupair, não pude deixar de notar que uma das personagens é gorda e negra e no entanto, não é explorada por isso, mas sim por seu talento, atitude de diva e autoconfiança. Personagens como a Mercedes do Glee e a Jane do Drop Dead Diva têm devolvido a confiança a muitas mulheres que, como eu, acreditavam cegamente que apenas o fato de serem gordas era o bastante para que elas fossem irremediavelmente feias. Apesar de me sentir mais à vontade comigo mesma após a exposição de personagens como as citadas acima, nunca tinha sentido nada como o que eu senti quando ouvi e vi a  Adele cantar. Gordinha, taurina, com o grande amor de sua vida casado com outra mulher. Todas as palavras de "Someone like you" poderiam ter sido escritas por mim, sinto cada palavra dessa canção. Já pensei várias vezes em fazer algo do tipo, em escrever uma canção, mas tive medo de me apresentar e ser vaiada, medo de que as pessoas vissem apenas o meu aspecto físico e não quem eu realmente sou. Medo de que elas acreditassem mesmo que algumas experiências e sentimentos são negados a algumas pessoas, que algumas pessoas são menos magoáveis que as outras ou sei lá o que. Mas a Adele me deu uma sensação de real que há muito tempo eu não vivenciava.


Com uma significante injeção de confiança e ânimo, me dediquei a aprender a letra de "Someone like you". Talvez a partir de agora eu tenha coragem pra cantar quando alguém, numa rodinha de amigos, tiver um violão. Ou mesmo quando for numa festa de aniversário e tiver um karaokê. Não importa. A questão é que há a esperança de que eu posso fazer algo que amo sem ser ridicularizada por isso. 


Ficou um post meio estranho, mas é o que saiu depois de um telefonema um tanto esquisito e completamente contrário a essa minha tentativa de me aceitar como sou. Mas não vale a pena falar dele nesse post. Afinal, o propósito aqui é expor uma ideia e ver quem compartilha dela, como o próprio título do blog diz. Quem sabe amanhã eu consiga escrever um texto mais coerente e sólido.

2 comentários:

  1. Andréa, não faz muito tempo que eu conheci a música da Adele. Mas o seu texto me ajudou a compreender melhor a dimensão da música. Vou torcer para te encontrar cantando no corredor da Letras, numa dessas aulas que a gente acha que aprende mais fora da sala de aula, numa roda de amigos. Não importa que cante mal, que erre a letra... a música é muito mais do que isso. E ouso pautar o próximo post desse novo blog: como foi compartilhar com o mundo algo que ama: cantar. Forte abraço. Adriano

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  2. Déia, é só mais um passo.
    Você já escreve, apesar de - na própria universidade em que estudamos - não termos nenhum incentivo para isso.
    Cantar é mais uma coisa que você, subversivamente, deve começar a fazer e mostrar pras pessoas.
    Te dou todo o apoio.
    Bjn!
    Jacque.♥

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