O inconsciente e o amor à primeira vista (“triálogo” de hoje)
- Li numa revista que, quando dormimos, nosso cérebro apaga
algumas lembranças e o critério que ele usa para decidir o que mantém ou não em
nossas mentes é a associação. Ou seja, se ele consegue associar uma memória a
alguma outra coisa que já existe, ele a mantém. Então se eu conheço uma amiga
sua, por exemplo, meu cérebro vai manter a lembrança, pois vai associar a amiga
a você, entende?
- Sim. Mas e no caso de pessoas ou momentos que não podem
ser associados a nada?
- Como o que, por exemplo?
- Ah...sei lá...como explicar o que acontece quando a gente
se apaixona?
- Ah, você guarda o que a pessoa faz pra você, diz... sei
lá, e associa ao que você já tem...
- Mas e quando nem dá tempo? Como explicar, então, o que
acontece quando você bate o olho em uma pessoa pela primeira vez e ela
simplesmente não sai mais da sua cabeça?
- Como no amor à primeira vista, você quer dizer?
Uma terceira voz comenta:
- Amor à primeira vista não existe.
E a conversa termina aí. Mas na minha cabeça eu continuo me
perguntando como deve funcionar esse processo de associação de estranhos que
não têm qualquer vínculo com nossa cabeça, que pulam direto pro coração. A meu
ver, seguindo essa lógica, o cérebro teria um papel fundamental na determinação
de pessoas por quem nos apaixonamos, é ele quem vai decidir se aquela pessoa
com quem você cruzou na estação de trem vai continuar na sua cabeça quando você
acordar ou não. Nosso cérebro tem, então, uma noite de sono (uma noite? Algumas
horinhas...) para determinar quem vai ser importante na nossa vida e quem vai
ser esquecido. Fiquei imaginando algum deus do sono ou algo equivalente lutando
contra o tempo pra associar memórias boas a uma certa pessoa que, por enquanto,
é apenas um rosto, uma voz na minha cabeça. Fiquei imaginando o processo de “apaixonamento”
e me perguntando se em algum momento a imagem do meu amor atual foi associada a
rodovias à noite, à sensação de ser tocada pelas ondas do mar, ao vento frio
das 6h da manhã, ao cheiro de dama da noite, ao por do sol visto de uma
montanha, à textura de uma barba por fazer, ao arrepio de um beijo estalado, ao
desenho de mãos delicadas, a um jeito de caminhar engraçado, a uma voz doce e
um jeito calmo de se expressar, e a todas pequenas coisas que de alguma forma
me fazem pensar nele.
Quando o vi pela primeira vez, sabia que alguma estava
prestes a mudar em mim. E sou grata ao meu cérebro por tê-lo mantido aqui, na
minha história, e feito com que, da noite pro dia (literalmente), eu passasse a
gostar de camisas xadrez, a me interessar por viagens sem destinos planejados e
voltasse a ter um carinho especial pela palavra escrita. É curioso constatar
que ao tê-lo deixado ficar (ainda que inconscientemente), eu reencontrei partes
minhas que achava ter perdido para sempre.
E ainda tem gente que não acredita em amor à primeira
vista...
